Escolha das Palavras

    Saber qual palavra combina com outra é um grande obstáculo no aprendizado de um idioma. Pois a combinatória lexical revela o horizonte do mundo de uma língua.

       Em português, por exemplo, "prestamos" atenção, como quem fornece um serviço, um préstimo, uma prestação de contas. O inglês "paga" a tenção (pay attention), como se comprasse.

      Brasileiros e portugueses "tomam" café da manhã, lembra a gramática Maria Helena de Moura Neves. Eles o engolem, protegem-no para que o outro não o pegue - a fome incorporada os espreita? Já os saxões "têm" café da manhã(have breakfast e não take breakfast), consideram-no uma propriedade valiosa. Em português, completa Jean Lauand, nós "fazemos" um cheque ou "compomos" uma canção, enquanto o falante do idioma inglês, pragmático, "escreve" (write) o cheque e a canção.

      O cuidado com outro pode não ser premissa da visão de mundo em inglês, se pesarmos só o idioma. O falante de português, lembra a linguista argentina Ivonne Bordelois, sonha "com", acompanha a cena ou pessoa, a seu lado. O de língua inglesa sonha " arespeito de" (to dream of), um pensar mais indiferente, num "cada um por si" da linguagem. Os gringos pensam "sobre" (think of), atitude desconfiada de quem encara tudo como de antemão estranho.

      Em situações sociais, nós " apresentamos" um amigo, nós o oferecemos, presenteamos ao outro. O que é meu é seu também. Eles "introduzem" (introduce), largam o cara entre desconhecidos.

      Em quaisquer desses casos, não tendo a competência natural para saber qual palavra de fato é "colocável" ao lado de outra, sente-se o fosso entre culturas. No contato direto, o estrangeiro percebe que algo mais lhe escapa.


Autor: Luiz Costa Pereira Junior


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