A onomatopeia comercial

A onomatopeia comercial

Como o recurso que transforma sons em palavras virou uma arma do mercado para atrair consumidores

Luiz Roberto Wagner


O quadro Kapow!: onomatopeia representada no mercado da arte
Cerca de metade dos telespectadores brasileiros vê, ouve e lê o "plim-plim" da Globo chamando-a de volta a seu programa de TV. Essa palavrinha dá-nos um som onomatopaico, imita o som de um objeto.

Onomatopeia é a figura de linguagem - também chamada "figura de som" - que se forma pela imitação de ruídos, de gritos, de barulho de máquinas, canto de animais, sons da natureza, o timbre da voz humana. Esses recursos são muito explorados em histórias em quadrinhos e até pelo comércio.

Nos supermercados, encontramos a batata palha e o biscoito de polvilho da marca "Crac". Provavelmente quem batizou esses dois produtos quis indicar que as batatinhas e os biscoitos são torrados e crocantes, pois fazem o som "crac crac" quando mordidos; as onomatopeias têm sua carga significativa na sonoridade e não no conceito.

Nos supermercados, há onomatopeias inglesas estampadas em produtos. Tic Tac, por exemplo, indica um som regular e cadenciado, como o do relógio ou do batimento cardíaco, e passa para o português como "tique-taque" ou "tiquetaque".

"Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever." (Fernando Pessoa)

Formação de palavras
Literalmente, "onomatopeia" tem origem grega. Significa "criar nomes": ónoma (nome) e poiía (fabricar, criar). Criada a partir da imitação ou da reprodução aproximada de um som natural a associado ao vocábulo, a onomatopeia é um processo de formação de palavras, tal como é a composição [2 ou mais semantemas (parte da palavra que expressa um conceito): passatempo = passa + tempo; petróleo = petra + óleo] e a derivação [1 semantema: roseira = ros- + -eira; anoitecer = a- + noit- + -ecer].
As onomatopeias "puras" buscam imitar ao máximo os sons que representam: "atchim", "bip", "brrr", "clic", "toc-toc", etc. Tais exemplos não se identificam com palavras, só imitam os sons que representam. Muitos dos ruídos e sons representados por esse recurso acabam incorporados à língua.

"Plim-plim" da Rede Globo: o som que virou sinônimo de marca
Já as onomatopeias "vocalizadas" enquadram-se no campo da gramática e da linguística, e constituem palavras como outras quaisquer. Seguem as regras de construção ortográficas e têm classificação morfológica, como "roncar" e "mugir" (verbos), que correspondem às onomatopeias puras "ronc" e "muuu".

Quase todas as onomatopeias puras são passíveis de lexicalização, basta antepor-lhes um artigo: o tic-tac, um toc-toc etc.

"E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano." (Machado de Assis, no conto Um Apólogo).
Para muitos estudiosos, as formações onomatopaicas são, em geral, de caráter universal. Há poucas semelhanças, entretanto, nos diferentes idiomas quando se traduzem graficamente essas expressões.

Kapow!
Cada língua convencionou a onomatopeia de uma maneira própria. Nas HQs brasileiras, quando um objeto cai na água, representa-se o ruído por "tchibum!" Já os norte-americanos traduzem o mesmo som como splash!. Porque inspirado em quadrinhos, Roy Lichtenstein (1923-1997) lançou as onomatopeias no rico mercado das artes, como no quadro Kapow!, versão em inglês de uma explosão. Fosse no Brasil, seria algo como "bum!".

Em português, a pessoas fazem "xixi"; os espanhóis fazem pis, o que nos leva a considerar a estreita relação do ruído com o líquido em questão.
Em nosso idioma, as onomatopeias formam só três classes de palavras: substantivos, verbos e interjeições (ver quadro acima).

É recurso dos mais comuns na prosa e na poesia, para produzir efeito especial e reforçar a capacidade comunicativa do texto. Tem, na poesia, grande importância estilística, pois nela se concentram melodia, harmonia e ritmo da frase. A poesia reforça os valores sonoros da onomatopeia pela aliteração (repetição de fonemas semelhantes). Daí sua sensível aproximação a essa figura de som, como neste trecho do  parnasiano Vicente de Carvalho:

Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?

Aqui, o conteúdo onomatopaico é criado não só pela repetição de "murmúrio", mas pela aliteração (repetição dos fonemas /v/ e /m/).
Onomatopeias provam a dinamicidade do idioma. Quer por meio de figura, quer pela imitação de sons, a língua estará sempre pronta a receber novos termos onomatopaicos.

Luiz Roberto Wagner é doutor em Letras e professor da Faculdade Interativa COC - Ribeirão Preto (SP)

As categorias

As onomatopeias assumem três classes de palavras

Substantivo Verbo Interjeição
bem-te-vi cacarejar Aaai!
fonfom coaxar Ah !
reco-reco miar Ufa !
tico-tico mugir Bah !
toque-toque pipilar Pimba !
zunzum tilintar Catapimba !

Visualizado : 2154 Vezes
Todos os Artigos

Desenvolvido pelo Centro Educacional Betel